Dióspiro
Poesia Reunida 1977-2007
Autor: Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Selecção e organização: Luís Miguel Queirós e José Carlos Tinoco
Editora: Quasi
Daniel Maia-Pinto Rodrigues – Imaginação e Memória
Descendente, por parte do pai, dos Condes de Botelho e da brasonada família Correia Mourão, bisneto por parte da mãe, do republicano e democrata Coronel Maia Pinto.
É assim o primeiro contacto com o poeta para quem começar a ler este livro pela badana. O bisavô José Teixeira Rêgo, e os seus tios e primos Arnaldo Gama, Conde de Paço d´Arcos, Anrique Paço d´Arcos, Joaquim Paço d´Arcos e Carlos Malheiro não estão aqui para convencer o leitor que Daniel Maia-Pinto Rodrigues não é nenhum badano. Este desfiar de antepassados ilustres não é um mero exercício de pedantismo heráldico, mas antes um exercício de memória, essencial para a sua poética e para a sua vida. Juntamente com a imaginação, a memória é um conceito chave para iniciarmos a digressão pela obra de Maia-Pinto Rodrigues.
Dividido em duas grandes partes (só) aparentemente antagónicas, Contemporaneidades e O baú em quebra-luz, a ordem que se escolher para ler este livro influenciará a percepção geral que se tem da obra e do seu autor. “Eu sou o escritor do baú em quebra-luz, o outro é um repórter da realidade.” O escritor do baú envia esporadicamente ao mundo um outro-eu, descosido da sua identidade real, com o intuito de observar, relatar e esbofetear na cara a realidade mesquinha, chatinha, comesinha, coitadinha. “As diversões do mundo real não me interessam. A pequena tristeza, as pequenas lamúrias, os pequenos ciúmes. A realidade (leia-se contemporaneidade) não é o sítio ideal para escrever poesia. Interessa-me o quietismo, a luz parada, o grande sossego, esse nowhere da realidade.” Interessa-lhe o baú, portanto. E é para o quietismo do baú que o enviado de Daniel à realidade leva notícias, “o pulsar da vida de cá”, que são depois trabalhadas pela personagem primeira que escreveu os poemas do baú em quebra-luz, no baú em quebra-luz. “Ter ficado parado no tempo é profícuo à poesia.”
Daniel não rejeita o real, antes o usa para construir uma realidade ainda mais real, um supra-real cuidadosamente moldado pelas ferramentas intelectuais que escolheu para esse trabalho: memória e imaginação. Estas são as ferramentas que guarda dentro do seu baú, sendo o silêncio e a luz o seu atelier, o espaço ideal, onde o poeta forja a sua realidade ideal. “A minha identidade está preservada na memória, no baú”, diz-me. “É aí que está a luz que me interessa. Não o néon, não aquele amarelo enfermiço, mas o amarelado confortável. É nesse baú em quebra-luz que me encontro”.
Vamos ver como falam estas duas personagens, o enviado e o poeta. Diz-nos, o enviado de Daniel no último poema de Contemporaneidades: “Devagar apenas um se repete/ E chora/ É um rapaz sozinho/ O amor de um rapaz sozinho/ A perfeita pintura de um rapaz/rapariga ágil /Não há mais ninguém/ Nas esquinas dos seus olhos/ Deixem-no ir é um estranho/ Terá o seu tempo a sua oportunidade/ Há-de conseguir imaginar viver.” (p.186)
Há-de conseguir imaginar viver. Como um noviço em vésperas de entrar para a reclusão de um mosteiro, adivinha-se aqui uma preparação do poeta prestes a entrar no baú e desligar-se do mundo. Uma decisão radical de quem tomou consciência de que a vida imaginada é a única que vale a pena ser vivida e, por isso, decidiu ser poeta de corpo inteiro. E sendo que a imaginação trabalha a partir da memória, a experiência da memória é uma experiência de vida.
Uma vez já dentro do baú, o poeta fecha a tampa à realidade não filtrada pela imaginação e diz-nos: “Aquele animal/ por mais que contorne a lagoa/ nunca chegará até nós. / Eu e tu é que ficaremos sempre/ um com o outro. (p.228) A realidade nunca chegará até Daniel Maia-Pinto Rodrigues, ou não tivesse sido sempre o seu grande projecto, ele que odeia projectos, “que o mundo não me mudasse a mim.” (p.170)
Nota: Já tinha acabado de escrever esta crónica, já estava ela prestes a entrar no prelo e ocorreu-se-me que quem eu entrevistei no Café Slávia numa quarta-feira à tarde, quem me ofereceu um exemplar autografado de Dióspiro e escreveu nele algumas palavras simpáticas, não foi Daniel Maia-Pinto Rodrigues mas sim o seu enviado especial à realidade. O verdadeiro Daniel, esse “mafarrico”, nem sequer saiu de casa, do baú, ou donde raio é que ele se esconde. Já não vou a tempo de rescrever esta crónica, os rolos da rotativa já devoraram metade do meu casaco, mas quando nas páginas de Dióspiro encontrar aquele corrimão que desce ao seu encontro, dir-lhe-ei umas quantas coisas acerca de combinar entrevistas e não aparecer. Até lá... bem hajas Daniel por não existires no meio de nós.
Tomás Magalhães Carneiro, Artigo retirado da revista Um Café
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Entidade Nocturna
Aí por alturas de um ciclo de conferências
fui ver uma exposição de pintura
à Fundação Engº António de Almeida
onde vim a travar conhecimento
com uma jovem timorense
que vivia na Maia há um ano e meio.
Ora, eu, talvez por ter chamado a atenção da jovem
rapidamente fiquei a par
das causas do povo maubere.
O fim da tarde estava frio
e apesar de me sentir constipado
prestei-me para o que desse e viesse.
Fomos jantar a um restaurante chinês.
Ela era bonita e, já se vê, um pouco escurita.
Combinámos ir no fim-de-semana seguinte
a um tal sítio que ela conhecia
não sei quê de um lago, não sei onde
à beira de um pinhal.
Enquanto aplicava uma expressão de interessado
eu ia pensando é se aquilo não seria mas é um truque
ou coisa assim.
Pergunta-me ela, então:
"Tu não tens medo do Black Jumento, pois não?"
"De quem?"
"Do Black Jumento!"
O Black Jumento, explica-me ela, é uma entidade nocturna
que aparece nas margens dos lagos
quando se apercebe que há romance no ar.
Ó diacho, isto está a ficar complicado, pensava eu
enquanto sorria e arregalava os olhos.
No fim-de-semana combinado
fomos no carro dela
por uns sítios que não sei bem
onde eram, mas, de facto
lá acabámos por ir dar a um pinhal.
O dia estava bonito. Uma luz coada
pairava sobre os pinheiros.
Fizemos um piquenique
e sentíamo-nos bem.
As horas corresponderiam às do Princípio da Tarde.
Depois de quase termos adormecido
fomos dar um passeio.
Era tudo indistinto, aprazível, refractado.
Um vento suave agitava as árvores
eu sentia regressos, luzes, descontracções
e de uma forma desfocada e quase súbita
avistei um lago.
Olhei para ela de repente
e ela, doce, olhava para mim.
O dia mergulhou no lago
e ela, doce, olhava para mim.
Eis se não quando aparece o Black Jumento.
"Desculpa lá, ó Black Ju... Jumento
tu, para além de seres nojento
podias ter aparecido noutro momento."
O Black Jumento, sem se desmobilizar
e não pensando ele noutra coisa
apressado a tirar os calções.
"Ó Jumento, mas qual é a tua ideia, meu?!"
"A minha ideia é que tu me dês o que pensas que é teu!"
"Espera lá - disse eu - não me são estranhas essas tuas patas..."
"Ó português, meu trengo, não vês que sou o Ali Alatas!"
Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in Dióspiro
fui ver uma exposição de pintura
à Fundação Engº António de Almeida
onde vim a travar conhecimento
com uma jovem timorense
que vivia na Maia há um ano e meio.
Ora, eu, talvez por ter chamado a atenção da jovem
rapidamente fiquei a par
das causas do povo maubere.
O fim da tarde estava frio
e apesar de me sentir constipado
prestei-me para o que desse e viesse.
Fomos jantar a um restaurante chinês.
Ela era bonita e, já se vê, um pouco escurita.
Combinámos ir no fim-de-semana seguinte
a um tal sítio que ela conhecia
não sei quê de um lago, não sei onde
à beira de um pinhal.
Enquanto aplicava uma expressão de interessado
eu ia pensando é se aquilo não seria mas é um truque
ou coisa assim.
Pergunta-me ela, então:
"Tu não tens medo do Black Jumento, pois não?"
"De quem?"
"Do Black Jumento!"
O Black Jumento, explica-me ela, é uma entidade nocturna
que aparece nas margens dos lagos
quando se apercebe que há romance no ar.
Ó diacho, isto está a ficar complicado, pensava eu
enquanto sorria e arregalava os olhos.
No fim-de-semana combinado
fomos no carro dela
por uns sítios que não sei bem
onde eram, mas, de facto
lá acabámos por ir dar a um pinhal.
O dia estava bonito. Uma luz coada
pairava sobre os pinheiros.
Fizemos um piquenique
e sentíamo-nos bem.
As horas corresponderiam às do Princípio da Tarde.
Depois de quase termos adormecido
fomos dar um passeio.
Era tudo indistinto, aprazível, refractado.
Um vento suave agitava as árvores
eu sentia regressos, luzes, descontracções
e de uma forma desfocada e quase súbita
avistei um lago.
Olhei para ela de repente
e ela, doce, olhava para mim.
O dia mergulhou no lago
e ela, doce, olhava para mim.
Eis se não quando aparece o Black Jumento.
"Desculpa lá, ó Black Ju... Jumento
tu, para além de seres nojento
podias ter aparecido noutro momento."
O Black Jumento, sem se desmobilizar
e não pensando ele noutra coisa
apressado a tirar os calções.
"Ó Jumento, mas qual é a tua ideia, meu?!"
"A minha ideia é que tu me dês o que pensas que é teu!"
"Espera lá - disse eu - não me são estranhas essas tuas patas..."
"Ó português, meu trengo, não vês que sou o Ali Alatas!"
Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in Dióspiro
Azul, Amarelo e Roxo
As três cores do Daniel:
O azul - a infância e onde existem as memórias;
O amarelo - o satírico e onde ele próprio se torna uma espécie de narrador participante;
E o roxo - a aproximação ao negro, ao gótica e é um encantamento do autor.
O azul - a infância e onde existem as memórias;
O amarelo - o satírico e onde ele próprio se torna uma espécie de narrador participante;
E o roxo - a aproximação ao negro, ao gótica e é um encantamento do autor.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Destaques
No balanço anual sobre a literatura portuguesa, com publicação no jornal "Público", Mário Cláudio coloca o romance O Corredor Interior, de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, como um dos 5 melhores livros (de todos os géneros literários) editados em Portugal, em 2006.
O "Das Artes e das Letras", suplemento de reconhecido interesse cultural, pelo Ministério da Cultura, editado pelos jornais "O Primeirio de Janeiro", pelo "Notícias da Manhã" e pelo "Diário XXI", dispensa-lhe três páginas, com destaque na capa, numa reportagem verdadeiramente inteligente, animada por Filipa Leal.
O jornal "Público", nas duas páginas centrais, no Dia Mundial da Poesia, dá-lhe grande realce, numa oportuna e interessantíssima reportagem, animada por Inês Nadais e Luís Miguel Queirós.
José Carlos de Vasconcelos, no "Jornal de Letras", dá-lhe honras de A Figura, numa excelente, esmerada reportagem, de página inteira e destaque na capa, com assinatura de Francisca Cunha Rêgo.
Marcelo Rebelo de Sousa, inclui-o na antologia que elaborou, intitulada Os Poemas da Minha Vida.
A Porto Editora, inclui-o (muma breve representação da moderna poesia portuguesa) na vasta obra - 12 volumes - A Poesia Portuguesa no Mundo (Dicionário Ilustrado).
valter hugo mãe, recentemente distinguido pelo Prémio José Saramago, inclui-o na antologia Desfocados Pelo Vento, A Poesia dos anos 80, Agora (Quasi Edições). Refere o antologiador que Desfocados Pelo Vento é um verso retirado de um poema de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
Luís Carmelo, em edição das Publicações Europa-América, inclui-o na antologia A Novíssima Poesia Portuguesa e a Experiência Estética Contemporânea.
Adorinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira, em edições das Publicações Dom Quixote, representaram-no em duas antologias.
Manuel António Pina, sobre a poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, entre mais palavras, escreve o seguinte (ver livro Dióspiro):
É preciso que eu diga algo se calhar cruel e comprometedor: a maior parte da poesia portuguesa de autores mais jovens (a revelada, digamos, nas últimas duas décadas) parece-me, senão decepcionante, ao menos, e em geral, desnecessária. Com raríssimas excepções, ela tem apenas, de novo, a idade dos seus autores; muitas vezes nem velha é, é apenas de idade indefinida. A sua principal característica é a desnecessidade, quero eu dizer que, da parte dela, não há-de vir mal nenhum, nem bem nenhum, ao mundo. (De qualquer modo, a minha opinião não tem qualquer relevância na matéria, e não há-de ser decerto ela a determinar o seu destino ou o seu não-destino...)
A poesia do Daniel é, para mim, leitor compulsivo, mesmo se frequentemente distraído, da poesia que se vai publicando, uma dessas raríssimas excepções. E o seu carácter excepcional resukta não só da sua singularidade, mas, simultaneamente, do modo como essa singularidade, essa estranheza, transporta um emocionado e desconcertante reconhecimento do funcionamento do próprio poético.
Mário Cláudio, sobre a poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, entre mais palavras, escreve o seguinte (ver livro Dióspiro):
Jurar que ascendeu Daniel Maia-pinto Rodrigues, por conseguinte, mercê de um espicialíssimo talento de perscrutação dos deuses profundos, à dimensão de quem dispensa o tocável que se lhe depara, corresponderá a glosar, para melhor entendimento, quanto ficou, entretanto, nas linhas que precedem estas, e a proclamar o que haverá de surgir, nas seguintes. Despido da ganga dos vates do esquematismo emocional, que recolhem as palavras, em sua miserável condição, à superfície da terra ou à flor da pele, eis o que repudia a cura de águas chilras ou o caldo de galinha descorada, a que alguns persistem em condenar, desde há décadas, falanges e falanges de pobres aprendizes, para quem as nascentes mais fundas se ocultam, sem remédio, sob o mais imediato dos rumores.
Estar este demiurgo, por isso, aponta no sentido de uma jubilosa ressurreição, a que logrou superar todo o balbuceio, e abalançar-se a escrever, desde o início, sem aquele lamentável racismo lexical, que caracteriza a acanhada respiração dos supra-referidos mestres, e a de seus discípulos, quando as palavras nobres se contam, de facto, pelos cinco dedos de cada mão. É a realidade global, pois, que se descobre, nestes textos, além de tido o que a supera, porque de um universo paralelo, mas que, com o vertente, se cruza e se entretece, se vê espraiada a paisagem dos invetores de semelhante fibra, os quais transcendem, com o risco que assiste, sempre, aos criadores autênticos, as inúmeras fronteiras do território do possível.
Rosa Maria Martelo, Luís Miguel Queirós e José Carlos Tinoco constroem peças literárias de grande beleza e visão profunda, em torno da poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues (ver livro Dióspiro).
Rui Lage, no seu notável Ensaio (cuja leitura recomendo vivamente, por peça literária de inegável valor e interesse cultural) sobre a poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues diz o seguinte nas conclusões:
Em resumo, ambos nos oferecem leituras apaixonantes, habitam as margens, navegam contra a corrente, fintam arquétipos e estereótipos, resistem às tentações epigonais, ambos, se a palavra ainda não é proibida, ou de mau gosto, fazem vanguarda.
Por tudo isto, e em jeito de conclusão antecipada, dizemos que Daniel Maia-Pinto Rodrigues é responsável por não pouca coisa: oferece de bandeja à poesia portuguesa um admirável mundo novo.
Em concurso instituído pelo Ministério da Cultura, Fiama Hasse Pais Brandão e Vasco Graça Moura atribuiram-lhe menção Honrosa pelo livro A Próxima Cor. Este mesmo livro foi posteriormente distinguido com o prémio Foz Côa Cultural, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
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